Por Juca Fernandes
Viver é acreditar que possamos terminar uma obra que só finda quando nossos olhos ficam cerrados para a vida. Contrariar o óbvio é uma missão incumbida aos sábios. Portanto, sábio são aqueles que exultam a incoerência e brindam as pequenas conquistas. Quem planta uma muda da árvore de noz-moscada, sabe que seus frutos serão colhidos depois de 35 anos, muito tempo para os medíocres plantadores de couve. Muito tempo para os medíocres pichadores de muros em construção. Muito tempo para os medíocres governantes que planejam o futuro de uma nação, como se o futuro fosse no tempo de um desabrochar de cogumelos. Se pudéssemos inverter a ordem natural da vida, aí, sim, teríamos uma obra com início e fim. O homem surgiria velho e sábio e aos poucos conquistaria tudo de novo até o regresso ao útero materno, protegido pela mãe egressa dessa velhice. Surgiríamos no mundo aos 80 anos de idade e lentamente cicatrizaríamos nossas feridas e entenderíamos o passar da dor. Nossa visão ganharia claridade e distanciaria nossos horizontes. Os membros cansados lentamente se fortaleceriam e a velocidade de nossos passos nos deixaria próximos de uma enorme árvore carregada de nozes, marcadas com os vincos de nossas frontes que aos poucos desapareceriam relevando nosso sorriso e aumentando a pressa para conquistarmos a impetuosa e necessária jovialidade. As guerras passariam com a certeza de que o mundo assistiria ao seu fim sabendo que não valeria por tantos mortos. Nasceríamos detentores da razão e conquistaríamos a certeza de nossas dúvidas. Trocaríamos a ordem impávida pela desordem característica de uma árvore que se recusa a fecundar rapidamente. Veríamos nossos filhos errarem e acertarem, pois seríamos avós, pais e filhos. Observaríamos bem menos e faríamos bem mais. Nossas expectativas teriam fim, e não começo. Brindaríamos a obra pronta e iniciaríamos sua desmontagem peça a peça, sem a pressa do início e sem nenhuma expectativa para aquilo que já é belo e vigoroso enquanto inacabado. Mudaríamos nosso semblante por vezes e num crescente decrescente ganharíamos a inconseqüência do jovem, amparado pela irresponsabilidade legítima de não ter de conquistar mais nada, a não ser a felicidade que não depende de regra alguma, tampouco contar o tempo a acertar um relógio que insiste em nos manter vivos, porém atados à espera de uma singela noz-moscada. E assim, lentamente, como uma deusa de pés perfeitos e vários e sinceros semblantes, pisaríamos o planeta com a certeza e segurança do útero materno que seria o fim do começo da vida.
O autor é editor da Revista FreqüêenciaLIvre
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